- A la pucha tchê! Plena madrugada de vinte de setembro e esses fresco de gravata vêm me rompê as bola! Mas é bom que seja sério mesmo o assunto por que se não for juro por Bento Gonçalves que capo esses guampudo!
Entre maldições aos engravatados, cusparadas de grudar lagartixa em pedra e goles de canha quente, seguia o gaúcho montado em seu cavalo cortando a campanha em direção ao galpão.
- Bueno, menos mal que cheguei por que a canha já tava por terminá!
O gaúcho desce de seu cavalo, enrola calmamente outro palheiro, sacode a bombacha para liberar as terríveis flatulências nestas confinadas no decorrer do percurso, aperta o cinto, ajeita o lenço, arruma o chapéu, passa a mão na barba já branca e segue a passos firmes marcados pelo som das esporas, em direção à entrada do baile.
- Buenas! – cumprimenta o homem que deveria fazer as vezes de porteiro ou coisa parecida.
- Buenas índio véio, me dexa passá!
- Tas armado tchê?
- Que tu acha vivente? Claro que tô! – responde Floriano mostrando a adaga, o relho e o revólver presos ao cinto.
- Então passa!
- Não sei pra que essas frescura de botá esses guasca na entrada do galpão preguntando se a gente ta armado! Pergunta idiota!
Assim que adentra o galpão, a atenção de alguns é voltada para o velho Floriano. Apesar de já estar chegando aos sessenta anos, ainda possuía a constituição de um touro reprodutor, moldada pelos trabalhos forçados da campanha e o Minuano, que o velho Floriano aguentava no lombo quase que em pelo, todas as manhãs. Do alto de seus quase dois metros de altura, o velho Floriano, que era filho de índio com alemão, observava atento a movimentação dentro do galpão. Precisava encontrar o quanto antes quem procurava.
- Me dá uma canha tchê! – pede o gaúcho junto ao bar improvisado.
O homem do bar atende rapidamente ao pedido do velho gaúcho, que bebe de um gole só a agua ardente.
- Bueno índio véio, hora de aparecê! – diz o velho gaúcho retirando de seu cinto, um saquinho de plástico transparente que continha fumo e papel seda para a preparação de mais um palheiro.
O velho Floriano então começa a percorrer o galpão com o palheiro na boca, tragando e soltando a fumaça para o alto feito uma maria fumaça.
- Vem cá prenda – diz o gaúcho puxando para si uma mulher que dançava com outro homem – e tu tchê, não te fresquéia! – alerta Floriano o ex parceiro de dança da prenda.
E assim ia o velho Floriano através do baile, roubando as chinas pra dançar e preenchendo o ambiente com a fumaça de seu palheiro. Assim que certificou-se de que a fumaça já se espalhara pelo galpão todo, Floriano descansa as botas e ficar apenas a observar atentamente o local. Em breve a fumaça faria efeito, e assim aconteceu. Abrindo caminho entre os pares, o velho Floriano avançava decidido pelo baile, e assim que visualiza seu alvo, não hesita e age.
- Vem cá china véia! – diz o gaúcho roubando mais uma mulher que dançava.
- Por acaso fumaste bosta seca de vaca guasca? Qué morrê? – exclama irado o homem que perdera a parceira de dança.
- Vai a merda viado! – responde indiferente o velho Floriano, jogando em seguida, a fumaça de seu palheiro no rosto do homem.
Este então, começa a tossir ainda mais intensamente do que já estava, até que cospe sangue no chão.
- Tu fica aqui! – ordena Floriano à mulher, saindo do galpão em seguida.
Assim que deixa o baile, o velho Floriano logo percebe uma movimentação estranha dos cavalos a alguns metros, e, sem hesitar, caminha para sanar suas duvidas. Lá chegando encontra o tuberculoso apoiado a uma árvore ainda cuspindo sangue.
- Que tu qué comigo tchê? Não tem medo de morrê, sabe com quem tá te metendo? – indaga furioso o homem com a boca suja de sangue.
O velho Floriano, indiferente à situação e totalmente calmo, nada responde, apenas terminando seu palheiro.
- Acha que tenho medo dessa faquinha véio fresco? – exclama o homem caminhando lentamente na direção do velho Floriano – tu vai precisá de muito mais que isso pra me matá!
- Vamô terminá logo com isso índio véio, que o baile ta bom e acho que a china que tava dançando contigo gostô de mim – continua Floriano retirando de seu cinto o relho – se tu prometê que vai embora e nunca mais mete as fuça por aqui, não te mato!
- Ta com medo véio? Agora é tarde, agora eu que vô te matá!
- Tu não te fresquéia tchê que te dô um relhaço no lombo que faço tu te mijá perna abaxo! – responde resoluto o velho Floriano com cara de poucos amigos.
O tuberculoso, no entanto, não dá ouvidos ao velho e avança irado contra este. O velho Floriano então, agilmente consegue retirar do caminho da adaga, seu corpo, fazendo com que o atacante ficasse de costas para si, com as costas totalmente desprotegidas. O velho então, com um golpe veloz e preciso descende seu relho sobre as costas de seu adversário.
- Ai, ai, ai! – grita o homem virando-se rapidamente para seu inimigo enquanto colocava as mãos nas costas em sinal de dor.
- Toma tchê, te avisei! Te mija loco, te mija! – exclama o velho em tom debochado.
Ainda mais enfurecido, o homem ataca novamente, porém, desta vez, com mais precaução. O homem joga contra o velho Floriano sua adaga, no entanto, este mostrando mais uma vez que estava em forma, e esquiva o ataque. No entanto, não consegue escapar da investida que o tuberculoso faz contra seu corpo. O homem abraça a cintura do velho Floriano com ambos os braços, empurrando este contra o barranco, mas, este não cai sozinho, pois consegue puxar para baixo seu adversário também. Os dois então, caem rolando barranco abaixo, e quando chegam ao final deste, somente o velho Floriano se levanta.
- Mas e como isto tchê? – indaga perplexo o tuberculoso deitado no chão – se tu nem me furô o coração e sim o bucho!
- É que essa estaca aí é de pau brasil animal – responde o velho Floriano – essa é das boa tchê, por onde caia te dêxa todo esgualepado que nem tu tá agora!
- Véio guampudo!
- Teu pai!
- Véio viado!
- Teu avô!
- Dexa eu me ir embora, prometo que não volto mais aqui!
- Agora é tarde!
- Mas já vai amanhecer daqui a pouco e eu não quero virá charque!
- Problema o teu!
- Juro que não meto os dentes em pescoço de china alguma por aqui!
- Eu sei que não vai, até porque nem dente de ti vai sobrá!
- SOCOOOOORROOOO!!!
- Cala a boca tchê! Te fecha, antes que eu termine contigo agora mesmo! E fica bem sossegadito aí que eu to voltando pro galpão e não quero mais bochincho por tua causa!
- Mas…!
- Bueno to voltando pro baile antes que termine e aquela china se vá embora! Tenho um pelego novo lá em casa pra estreiá!










