
Se não fosse pelo bom dinheiro prometido, eu desistiria agora mesmo, mas infelizmente não estou em condições de abrir mão deste trabalho, minha família não pode esperar.
Meu Deus, onde estou me metendo? Esta mina é diferente de todas nas quais onde já trabalhei, parece… viva. Me sinto como se estivesse sendo engolido por ela, como se este túnel fosse a garganta para as entranhas da terra. Mas tenho que ignorar esse detalhe e me concentrar no trabalho, o resto não importa, só o trabalho e o pagamento importam agora. Mas uma coisa não há como simplesmente esquecer: o fato desta mina ter sido descoberta já completamente aberta, quase do mesmo jeito como está hoje; com seus longos e profundos túneis que percorrem de forma desordenada o interior da terra, como se fossem raízes ou túneis de minhoca, bom… pelo menos é o que dizem os mineiros que já trabalharam neste lugar. Mas isso logo vou ter a chance de comprovar, é claro, se este maldito elevador não nos matar antes de chegarmos até lá emb…
- CUIDADO, SEGURA MINHA MÃO, SEGURA, FIRME!!!
- NÃO ME DEIXA CAIR, NÃO ME DEIXA CAIR, POR FAVOOOOOOO…!!!
Eu já o havia segurado firme, não poderia ter caído, mas parece que de repente algo o fez soltar minha mão, como se… não, deve ser coisa da minha cabeça. Devo estar deixando aquelas estórias me impressionarem. Pobre homem, devia ter uma família que o espera, assim como eu. Que Deus nos leve em segurança até lá embaixo por que se dependermos deste elevador, esta mina será nossa sepultura. Mas já devemos estar perto do fundo, já faz um bom tempo que estamos descendo, bom… acho que faz, já perdi a noção. Agora sim me sinto como se estivesse enterrado vivo. A última luz do sol que ainda via daqui debaixo parece ter sido tragada pela mina, e ainda continuamos descendo. Definitivamente este lugar é diferente de tudo que já conheci.
Acho que já estamos chegando ao fundo, o som dos trabalhadores está ficando cada vez mais forte. Sim, chegamos.
- O que aconteceu, ouvi gritos lá de cima enquanto desciam?
- Como assim o que aconteceu? Onde está o corpo?
- Que corpo? Como assim?
- Do homem que caiu desta porcaria de elevador que por pouco não nos mata!
- Mas não caiu nenhum corpo aqui!
- Não pode ser, eu mesmo o segurei pela mão, tentei puxar ele mas não consegui, ele caiu!
- Não é possível, não caiu nenhum corpo aqui, você deve estar imaginando coisas, certamente ouviu estórias de índios demais!
- Não estou imaginando coisa nenhuma, todos viram o que aconteceu, pergunte ao resto do pessoal!
- Chega de conversa, já disse que não caiu corpo nenhum aqui e comecem a trabalhar de uma vez! Tempo é dinheiro!
- Mas…!
- Chega já disse, e não quero nenhum de vocês falando desse assunto lá em em cima! Billy, venha aqui e apresente a mina para os recém chegados!
Desgraçado, não quis me ouvir, acha que estou louco, mas não estou. Ele deve ter escondido o corpo. Provavelmente para manter em segredo a morte daquele infeliz. Bom… melhor esquecer isso, não pretendo me meter em problemas por causa de um desconhecido.
Meu Deus, este lugar é maior do que eu pensava… é praticamente um labirinto, e estes túneis, não parecem ter sido feitos como todos os outros que já vi, parecem que foram abertos com… mas não é possível. Mas então como as paredes são tão lisas em alguns lugares? Isso é ferro puro… não, não pode ser.
***
Preciso descansar um pouco, estou exausto. Já nem sei há quantos dias seguidos estou aqui neste buraco. Maldita tosse! Este ar está me matando, é tão quente, parece um vapor. Preciso de ar puro, preciso de luz, preciso de uma cama de verdade, de comida decente… preciso da minha mulher e dos meus filhos. Como eles estarão? Droga! Onde está minha água? Achei, até que enfim, quase não tinha mais saliva.
- Sete.
- MEU DEUS!!!
- O que houve?
- Você quase me mata de susto!
- Desculpa, não foi minha intenção assustar você.
- Tudo bem, eu que vinha distraído e não percebi que você estava ai.
- Tudo bem, eu entendo, quando estamos aqui embaixo é bom manter a cabeça em outro lugar que não este maldito buraco, além do mais, este lugar é muito escuro.
- Concordo… mas você disse sete! Como assim sete?
- Fazem sete dias que não vejo a luz do sol!
- Ah, entendi! Eu já nem lembro a quantos estou aqui!
- Isso é normal, perder a noção do tempo aqui embaixo. Você deveria cuidar essa tosse! Por que não usa uma máscara como a minha? Não é a mesma coisa que respirar o ar lá de cima mas pelo menos o grosso da sujeira do ar daqui não chega nos seus pulmões. É bem fácil de fazer! Arranque uma manga de sua camisa, amarre no rosto e está pronta a máscara.
- Obrigado pela dica, vou usar!
- De nada!
- Mas mudando de assunto… você já ouviu as estórias sobre este lugar?
- Claro! As que os índios contam? Ouvi sim!
- O que você acha delas?
- Não acredito em nenhuma, não passam de lendas que os índios contam para assustarem os indiozinhos mais arteiros. Os índios são muito supersticiosos meu amigo, e digo isso sem medo de errar! Sou filho de índia com homem branco, mas como pode ter notado, não comparto de todas as suas crenças, caso contrário, não estaria aqui nas “Raízes de Fogo” que é como esse lugar é chamado pelos indígenas da região.
- Raízes de fogo, por que raízes de fogo?
- Depois eu te explico, agora preciso voltar ao trabalho, Billy está vindo! Até logo e boa sorte meu amigo!
***
Fazem três dias que procuro aquele homem e não o encontro. Devem ter deixado ele subir, deve estar de folga. Eu devia ter perguntado o nome dele, seria mais fácil encontrá-lo. “Raízes de Fogo”. Esse nome continua martelando na minha cabeça como o som dessa maldita picareta contra essas paredes de ferro. Preciso de um descanso, estou muito cansado, esta mina está acabando comigo. Mas pelo menos a tosse diminui um pouco, parece que a máscara ajudou mesmo. Que silêncio, está tudo muito quieto, não vejo ninguém por perto.
- Tem alguém aí?
Ninguém. Eu devo ter me afastado dos outros enquanto trabalhava distraído. Melhor eu voltar. Droga! Não lembro de que lado eu vim. Que barulho foi esse?
- Tem alguém aí… tem alguém aí?
Meu Deus, quase fui soterrado.
- SOCORRO, ALGUÉM ME AJUDE!
Droga, droga, não adianta gritar, ninguém vai me ouvir. Tenho que voltar, mas este lado do túnel está bloqueado pelas pedras. Bom, pelo menos agora não tenho mais dúvidas, só posso ir para este lado. Espero que seja o certo.
***
Maldita mina, é mais um labirinto que qualquer outra coisa. Já nem sei a quanto tempo estou caminhando por estes túneis e não encontro nada a não ser mais túneis. O ar está cada vez mais quente, a temperatura parece aumentar a cada passo a frente que dou… a frente e para baixo. Estou descendo. Não consigo encontrar o caminho de volta, estou perdido, exausto, preciso de comida e água. Não consigo dar nem mais um passo, tenho que dormir…
***
Que barulho foi esse?
- QUEM ESTÁ AÍ, QUEM ESTÁ AÍ? RESPONDA!!!
Nada deste lado, nada deste outro. Está tão escuro, não vejo quase nada. O que foi isso? Acho que vi alguma coisa ali! Melhor pegar um lampião desses, para frente está totalmente escuro, melhor nem ir por ali, mas deste lado foi que eu vim e não encontrei nada. Merda, preciso sair daqui ou vou morrer neste buraco. Deus, me ajude, por favor, preciso sair daqui, minha família precisa de mim!
- SOCORROOOOOOO!!!
O que faço, o que faço? Estou fraco, suando frio, minha boca está seca, mas preciso continuar. Não posso ficar esperando por ajuda, ninguém virá atrás de mim. O que foi isso? Tem alguém por perto, eu sei que tem, não estou alucinando, não estou, não estou!
- Socorro, por favor me ajude, me tire daqui… DEUS… não, não!!! SOCORRO, ALGUÉM ME AJUDE, SOCORRO!
Está me alcançando, está me alcançando. Não consigo mais correr, minhas pernas não me obedecem mais… senhor, me ajude!
- AHHHHH!!!
Droga, minha perna, minha perna! Que dor! Onde está? Sumiu? Não vejo mais os olhos vermelhos, sumiram, mas sinto que ele está por aqui, sinto seu cheiro. Preciso continuar. Droga, minha perna! Por pouco não quebro no tombo. Acho que não consigo mais correr. Não vejo nada. Onde está o lampião? Merda, deve ter quebrado quando caí. É luz lá na frente? Acho que vejo alguém lá, deve ser a saída. Merda!!! Os olhos vermelhos, voltaram!
- SOCORRO, SOCORRO, ALGUÉM AÍ ME AJUDE, ALGUÉM, POR FAVOR!
Só mais um pouco, você consegue, você consegue, por sua família, você consegue, precisa ser forte! NÃO! Meu Deus, é o fim, não consigo mais levantar, não consigo levantar!
- VOCÊ AÍ, POR FAVOR, ME AJUDE, MINHA PERNA ESTÁ QUEBRADA, NÃO CONSIGO LEVANTAR, ME TIRE DAQUI!!!
Mas… será? Acho que sim… sim, tenho certeza!
- É você mesmo? Por favor, me ajude, tem alguma coisa me perseguindo, precisamos sair daqui, rápido!
- Sim, sou eu, mas é tarde demais para sairmos daqui!
- Como assim, tarde? Meu Deus, os olhos, OS OLHOS, estão ali, está vendo?
- Sim, estou!
- Você está louco índio maldito, quer morrer?
- Eu já morri! Morri aquele dia no elevador!
- Mas como, como? Não é possível, eu vi você cair!
- Como? Não é possível? Você logo saberá como, e logo saberá que é possível!
- Quem é você? Que lugar é esse?
- Sinceramente, eu ainda não sei o que sou!
- Por favor, me deixe ir, eu tenho mulher e filhos!
- Eu também tinha, e seque essas lágrimas agora mesmo, você está me enojando!
- AFASTE-SE DE MIM CRIATURA!
- Não seja ridículo homem, jogue fora esse crucifixo antes que eu perca a paciência!
- Eu não posso morrer aqui, não posso…
- Bom, você tinha me perguntado que lugar é este não é? Ainda quer saber?
- … não posso, não posso…
- Vou responder mesmo assim… o nome deste lugar não é “Raízes de Fogo”, embora o verdadeiro nome que os índios deram a este buraco tenha tudo a ver com raízes e fogo…
- SOCORROOOO!!!
- … mais com raízes do que com fogo na verdade!
- ALGUÉM ME AJUDE!
- Alguns dias atrás foi a minha vez, hoje será a sua de servir de alimento para estes túneis vivos, pois as “Raízes do Inferno” crescem para cima e não para baixo!!!
- Não por favor, não faça isso, não, não, NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOO!!!